Esses dias esbarramos com o vídeo de uma infeliz das costas oca em algum aeroporto pelas bandas do sudeste. Ela dizia que nem precisava saber o portão de embarque, bastava olhar para os traços das pessoas para descobrir o destino. Foi quando lembramos do velho comentário, camuflado de piada ou até de elogio: “você não tem cara de nordestino”. A tal “cara de nordestino” é uma expressão que surgiu há pelo menos um século, na época da construção dos estereótipos sobre quem é – ou deveria ser – a pessoa nordestina e a própria ideia do Nordeste.
Quem conta essa história é o escritor e pesquisador Octávio Santiago, autor da obra Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo nordestino. Lançado em 2025 pela Editora Autêntica, o livro, que está na 5ª tiragem, investiga como o Nordeste e as pessoas nordestinas foram sub-representados na literatura, nas artes, na imprensa e na televisão (e, claro, a quem interessava ter a região nesse lugar deturpado… cof, cof).
Nesta edição, ele compartilha, em uma conversa com a nossa cajueira Jayanne Rodrigues, a origem da “cara de nordestino”, o papel das novelas e de obras clássicas da literatura brasileira, como Os Sertões e A Hora da Estrela, na construção e manutenção desses estereótipos.
Um cheiro! Aproveite a entrevista!
De onde vem a falácia de que existe a “cara de nordestino”, com traços e características definidos?
Essa falsa ideia de que temos um “único rosto” é consequência de camadas de xenofobia que vêm se acumulando ao longo de mais de um século. A história do Nordeste enquanto região é recente. Ela acabou sendo costurada por algumas mãos interessadas e interesseiras. Foi criada também essa ideia de que nós obedecíamos a um padrão estético, físico e comportamental.
Esse estereótipo foi se retroalimentando por meio das artes. O cinema contribuiu, a televisão também, com o “Nordeste de folhetim”, que entra na seara do sotaque falacioso, da falsa ideia de que falamos de um jeito só.
Se pegarmos essa gênese, que apresento na minha pesquisa (trabalho que resultou no livro), vai encontrar um pouco do que está em “Os Sertões”, quando Euclides da Cunha fala que o sertanejo é de um molde só. E aí vem a ideia de que teríamos o esqueleto defeituoso, que seria o resultado que deu errado da mistura excessiva de raças.
Mais tarde, quando o Nordeste vai ser criado no papel, na virada do século XIX para o XX, temos uma imprensa, principalmente paulista, interessada em apresentar esse Nordeste e essa população. Vai recorrer às linhas de Euclides para fazer essa caracterização, sempre buscando um molde único, um padrão para enquadrar a gente.
Essa imagem foi reproduzida também pela televisão e pelo cinema?
Nós temos as artes visuais, o cinema, a televisão, sempre caminhando nesse sentido, colocando a gente em um lugar de redução estética. Nós sempre contrariamos os interesses sociais, políticos e econômicos. Contrariava um Brasil que queria se deslocar e firmar esse novo centro no eixo Sul e um Brasil que queria ser branco. Hoje a gente continua contrariando essa narrativa.
É sempre a ideia de: “ah, você não tem cara de nordestino”, portanto você acaba quebrando a expectativa que há em relação a nós. “Você trabalha bem, você até que é competente, apesar de ser do Nordeste.” Então também existe a contrariedade no que diz respeito ao comportamento e à disposição laboral.
O que fazemos até hoje é contrariar simplesmente existindo, até mais do que resistindo.
No seu livro, você fala do “complexo de Macabéa”, da obra de Clarice Lispector. Como essa personagem ajuda a entender esse processo?
Eu sou fã de Clarice e do livro A Hora da Estrela. Eu penso que ela coloca ali um narrador-personagem que é, na verdade, como o Brasil nos enxerga. Esse país que até nutre uma simpatia por essa nordestina, mas que não aceita vê-la protagonista da própria história.
Por isso, apresento o “complexo de Macabéa” logo na entrada do livro para entender como o apequenamento, o reducionismo e a subalternidade acabaram sendo internalizados inclusive pelos próprios nordestinos. Hoje o que vemos é diferente. Existe um levante, sobretudo nas redes sociais, de não aceitação da ideia de apequenamento e de aprisionamento do Nordeste.

Estamos falando de um novo Nordeste?
Não se trata simplesmente do novo Nordeste, que sempre foi plural. Mas existe uma necessidade de rotulação externa e interna, a gente foi comprando o repertório Nordeste. Esse repertório apagou coisas importantíssimas que aconteceram ao longo da história.
O Nordeste de hoje é diferente do Nordeste desde sua criação, há 100 anos. Existe uma pluralidade, uma produção de conhecimento e de saber que foi muito apagada. Então o que tentamos fazer é um reposicionamento, permitir que a lente seja ampliada.
Sempre ficamos reduzidos aos símbolos. Não é que esses símbolos não contem a nossa história. Eles dizem muito sobre nós, mas não podem nem são capazes de nos determinar. Nós precisamos nos reposicionar, ser reconhecidos como esse lugar de ciência, inovação, tecnologia e prosperidade. Ainda ficamos presos a linhas que foram escritas há mais de 100 anos.
Como podemos pensar em novas representações do Nordeste, que deem conta da complexidade dos nove estados?
Eu quero que a música fale sobre o Nordeste, quero que o cinema fale sobre o Nordeste, quero que a TV fale sobre o Nordeste, mas quero também que o nordestino possa falar sobre si, tenha esse espaço de respeito e consideração.
É quando vamos equilibrar essa balança entre sujeito, objeto e símbolo. Estamos precisando valorizar as pessoas. Quando se valoriza as pessoas, esse repertório simbólico que está presente em torno delas acaba sendo puxado para um lugar mais especial. Só vamos conseguir enfrentar esse preconceito com informação.
Existe aquela coisa de nós abraçarmos os estereótipos para nos defender deles: “eu sou cabra da peste”, “tenho a herança do cangaço”, “aqui minha peixeira”. Eu acho que a melhor peixeira que podemos ter nesse sentido é a informação.
Antes de ir embora, fique com as indicações que o autor Octávio Santiago preparou para os nossos cajuzinhos e cajuzinhas conhecerem outros jeitos de contar, ouvir e imaginar o Nordeste.
Para ouvir…
Belchior e Juliana Linhares. Octávio recomenda Belchior, que “está aí há 50 anos dizendo isso”, e Juliana Linhares como referências para pensar o Nordeste para além da cartilha de estereótipos.
Para assistir…
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. O cinema de Kleber é uma forma de deslocar a ideia de centro e periferia e provocar uma reflexão sobre o que é ser regional e o que é ser nacional, afirma Santiago, acrescentando que o filme faz isso “sem ser uma catequese”.
Para ler…
“A Cor de Defunto”, de Cami di Malta. Para o autor, a obra ajuda a pensar a subjetividade nordestina sem precisar recorrer aos símbolos tradicionais.
“O pássaro secreto”, de Marília Arnaud. A escritora paraibana também entra na lista de criar histórias que poderiam se passar em qualquer lugar, inclusive no Nordeste, sem que isso precise ser o assunto principal.
“Nódoa”, de Calila das Mercês. Mais uma vez, uma história nordestina sobre qualquer assunto. Nesse caso, o medo de ser enterrado vivo.
“Faísca”, de Ilustralu. O livro é ambientado no período junino, mas a história não se restringe aos símbolos nordestinos, também fala de gênero ao acompanhar uma menina que quer brincar de São João como os meninos.
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