
Sei que todo mundo já deve estar exausto da maratona eleitoral deste ano, mas precisamos reconhecer que não tem assunto mais importante nesta semana que a votação do próximo domingo. E o Nordeste, única região onde Lula aparece à frente nas pesquisas, voltou com gosto ao centro do debate.
Desta vez, está circulando por aí um vídeo com toda a estética sofrida nordestina para defender a tese de que nada mudou nos últimos 20 anos no Nordeste. Só que a realidade é que estamos bem longe de estarmos parados no tempo. No Instagram, o analista do legislativo federal Fernando Mesquita foi logo atrás dos dados oficiais do IBGE, Ideb e Inep.
E descobriu que, nas últimas duas décadas, o nordestino ganhou seis anos a mais na expectativa de vida, a mortalidade de bebês caiu dois terços, o analfabetismo caiu quase pela metade, a nota da escola pública mais que dobrou, a renda subiu 35% acima da inflação e a pobreza chegou ao menor nível da série. Veja os dados certinhos aqui.
A distância para o resto do país continua grande em renda, emprego e alfabetização, ele mesmo reconhece. Mas a gente não tem como fechar os olhos para os avanços. Somos um povo que, tal qual os demais brasileiros, produz ciência e conhecimento, reflete sobre a realidade e inova.
Enquanto muitos insistem em associar nossa imagem à seca e ao êxodo rural, estamos criando tecnologias para conviver no semiárido e exportando para outros países, da América Latina à África. Lembrei de uma reportagem bem bonita da jornalista Marina Rossi sobre isso, publicada no extinto El País Brasil. E especialmente da agricultora Antônia Márcia, que me contou há alguns anos como virou doutora do seu lugar.
O Sudeste adora colocar o nordestino no lugar do necessitado. O Nordeste, aliás, foi alvo de aproximadamente 27 milhões de manifestações críticas ou hostis nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o primeiro turno, segundo levantamento da Ativaweb DataLab. Não é raro aparecer o argumento da meritocracia no debate, aquele pensamento de que basta querer e perseverar para conquistar, como se todos partíssemos de condições iguais.
As pesquisadoras Mônica Mendes Gonçalves e Lia Vainer Schucman nos lembram que Lula poderia ser um excelente exemplo de ascensão por esforço individual. Afinal, é um menino pobre, nordestino, migrante, que conheceu a fome, teve pouca escolarização formal, tornou-se operário e chegou à Presidência da República três vezes. Mesmo assim, enfrenta constantemente a desqualificação de sua expertise, habilidades, feitos e história. Por que será?
Para as pesquisadoras, que publicaram um artigo muito interessante no Le Monde Diplomatique, o discurso de mérito nunca serviu propriamente para reconhecer quem supera as condições de sua origem, mas para transformar privilégios históricos em qualidades individuais de quem já ocupa posição de poder.
O pesquisador Octavio Santiago também se manifestou sobre os recentes usos da imagem dos nordestinos na campanha eleitoral no Instagram. Ele diz que, na verdade, a fórmula segue a mesma há pelo menos 80 anos: reduzir o Nordeste, vinculá-lo a imagens negativas e, a partir disso, construir o discurso político que convém. “O Nordeste mudou. O estereótipo, para alguns, continua sendo conveniente”, afirma.
E como a peixeira mais afiada é o conhecimento, vamos de castanhas com o melhor do jornalismo independente do Nordeste!

Um sol pra cada um
Um especial da Agência Tatu mostrou, nos últimos meses, como pequenos agricultores estão conseguindo contratar energia solar. A transição energética é também um dos principais instrumentos de modernização e inclusão no campo, com impactos positivos para as famílias, o meio ambiente e a economia rural.
As energias do Nordeste
E por falar em transição energética, vale lembrar desta série de reportagens – fruto de trabalho colaborativo entre as mídias nordestinas A Nossa Pegada, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Notícia Sustentável e Saiba Mais – sobre alguns dos caminhos a serem trilhados rumo à garantia da segurança energética com baixa pegada de carbono e que considere outros tipos de impactos socioambientais.
Símbolo contra a ditadura
A Agência Tambor contou que Flávio Bolsonaro agendou um ato político em São Luís, capital do Maranhão, no Memorial Maria Aragão, na praça que integra o espaço dedicado à vida e a obra da médica maranhense. Maria Aragão foi uma mulher negra que, durante a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964, foi presa e brutalmente torturada por lutar pela democracia e pela justiça social. A escolha do local por um candidato cuja família defende a ditadura foi vista por várias organizações como uma afronta.
Um ensaio sobre o sertão que vota com a memória
E pra inspirar o voto de domingo, deixamos aqui este ensaio do fotógrafo Samuel Macedo, diretamente do Cariri do Ceará. As imagens mostram porque o sertão vota com a memória.
É isso, minha gente. Bom voto no domingo, e a gente se fala depois do segundo turno!
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