O Nordeste mudou e podemos mostrar

Sei que todo mundo já deve estar exausto da maratona eleitoral deste ano, mas precisamos reconhecer que não tem assunto mais importante nesta semana que a votação do próximo domingo. E o Nordeste, única região onde Lula aparece à frente nas pesquisas, voltou com gosto ao centro do debate.

Três pessoas vestidas com trajes tradicionais coloridos e chapéus ornamentados participam de uma manifestação cultural popular à noite. Em primeiro plano, um homem sorridente segura um pandeiro com a bandeira do Brasil, ao lado de uma mulher que sorri e gesticula com as mãos. Ao fundo, outra pessoa também usa roupas festivas. A cena acontece em uma rua com casarões históricos, incluindo uma fachada azul.

Manifestantes culturais no Cariri cearense FOTO: Samuel Macêdo

Desta vez, está circulando por aí um vídeo com toda a estética sofrida nordestina para defender a tese de que nada mudou nos últimos 20 anos no Nordeste. Só que a realidade é que estamos bem longe de estarmos parados no tempo. No Instagram, o analista do legislativo federal Fernando Mesquita foi logo atrás dos dados oficiais do IBGE, Ideb e Inep.

E descobriu que, nas últimas duas décadas, o nordestino ganhou seis anos a mais na expectativa de vida, a mortalidade de bebês caiu dois terços, o analfabetismo caiu quase pela metade, a nota da escola pública mais que dobrou, a renda subiu 35% acima da inflação e a pobreza chegou ao menor nível da série. Veja os dados certinhos aqui.

A distância para o resto do país continua grande em renda, emprego e alfabetização, ele mesmo reconhece. Mas a gente não tem como fechar os olhos para os avanços. Somos um povo que, tal qual os demais brasileiros, produz ciência e conhecimento, reflete sobre a realidade e inova.

Enquanto muitos insistem em associar nossa imagem à seca e ao êxodo rural, estamos criando tecnologias para conviver no semiárido e exportando para outros países, da América Latina à África. Lembrei de uma reportagem bem bonita da jornalista Marina Rossi sobre isso, publicada no extinto El País Brasil. E especialmente da agricultora Antônia Márcia, que me contou há alguns anos como virou doutora do seu lugar.

O Sudeste adora colocar o nordestino no lugar do necessitado. O Nordeste, aliás, foi alvo de aproximadamente 27 milhões de manifestações críticas ou hostis nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o primeiro turno, segundo levantamento da Ativaweb DataLab. Não é raro aparecer o argumento da meritocracia no debate, aquele pensamento de que basta querer e perseverar para conquistar, como se todos partíssemos de condições iguais.

As pesquisadoras Mônica Mendes Gonçalves e Lia Vainer Schucman nos lembram que Lula poderia ser um excelente exemplo de ascensão por esforço individual. Afinal, é um menino pobre, nordestino, migrante, que conheceu a fome, teve pouca escolarização formal, tornou-se operário e chegou à Presidência da República três vezes. Mesmo assim, enfrenta constantemente a desqualificação de sua expertise, habilidades, feitos e história. Por que será?

Multidão participa de uma manifestação política em uma rua movimentada, sob o sol. No centro da imagem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vestido de vermelho e usando chapéu, está em pé sobre um veículo, acompanhado de apoiadores. Ao redor, manifestantes carregam bandeiras vermelhas do PT, da CUT e de movimentos sociais, além de cartazes e bandeiras de candidatos. Uma grande bandeira do Brasil cobre parte do capô do veículo.

Lula em campanha em Natal (RN) FOTO: Luisa Medeiros

Para as pesquisadoras, que publicaram um artigo muito interessante no Le Monde Diplomatique, o discurso de mérito nunca serviu propriamente para reconhecer quem supera as condições de sua origem, mas para transformar privilégios históricos em qualidades individuais de quem já ocupa posição de poder.

O pesquisador Octavio Santiago também se manifestou sobre os recentes usos da imagem dos nordestinos na campanha eleitoral no Instagram. Ele diz que, na verdade, a fórmula segue a mesma há pelo menos 80 anos: reduzir o Nordeste, vinculá-lo a imagens negativas e, a partir disso, construir o discurso político que convém. “O Nordeste mudou. O estereótipo, para alguns, continua sendo conveniente”, afirma.

E como a peixeira mais afiada é o conhecimento, vamos de castanhas com o melhor do jornalismo independente do Nordeste!

Um sol pra cada um

Um especial da Agência Tatu mostrou, nos últimos meses, como pequenos agricultores estão conseguindo contratar energia solar. A transição energética é também um dos principais instrumentos de modernização e inclusão no campo, com impactos positivos para as famílias, o meio ambiente e a economia rural.

As energias do Nordeste

E por falar em transição energética, vale lembrar desta série de reportagens – fruto de trabalho colaborativo entre as mídias nordestinas A Nossa Pegada, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Notícia Sustentável e Saiba Mais – sobre alguns dos caminhos a serem trilhados rumo à garantia da segurança energética com baixa pegada de carbono e que considere outros tipos de impactos socioambientais.

Símbolo contra a ditadura

A Agência Tambor contou que Flávio Bolsonaro agendou um ato político em São Luís, capital do Maranhão, no Memorial Maria Aragão, na praça que integra o espaço dedicado à vida e a obra da médica maranhense. Maria Aragão foi uma mulher negra que, durante a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964, foi presa e brutalmente torturada por lutar pela democracia e pela justiça social. A escolha do local por um candidato cuja família defende a ditadura foi vista por várias organizações como uma afronta.

Um ensaio sobre o sertão que vota com a memória

E pra inspirar o voto de domingo, deixamos aqui este ensaio do fotógrafo Samuel Macedo, diretamente do Cariri do Ceará. As imagens mostram porque o sertão vota com a memória.

É isso, minha gente. Bom voto no domingo, e a gente se fala depois do segundo turno!

A Cajueira é feita de forma voluntária, e a contribuição de nossos leitores é muito importante para a continuidade de nosso trabalho! Se quiser contribuir para ajudar a Cajueira a continuar a crescer e produzir ainda mais entrevistas e conteúdos exclusivos, contribua com um pix de qualquer valor para a chave: cajueira.ne@gmail.com, ou entre em nossa campanha de financiamento coletivo em apoia.se/cajueira.

Se não puder doar, não se preocupe: compartilhar esse conteúdo nas redes sociais também nos ajuda a alcançar novos públicos e continuar a crescer. Nos siga nas redes sociais e compartilhe essa newsletter!

Gostasse? Ajude a Cajueira a continuar valorizando a mídia independente nordestina.

Faça parte da Cajueira

Recebeu esse material de alguém? Assine nossa curadoria quinzenal de conteúdos do jornalismo independente nos estados do Nordeste.

Inscreva-se em nossa newsletter

Gostasse? Ajude a Cajueira a continuar valorizando a mídia independente nordestina.

Faça parte do CajuZap