O Nordeste pelas nossas lentes 📸

 

Opa, tudo certo?

No dia 19 de agosto foi comemorado o Dia Mundial da Fotografia. E por aqui a gente aproveita a data não só para reconhecer quem vive da câmera, mas para lembrar que fotografar também é um jeito de contar histórias, desafiar estereótipos e afirmar identidades.

Faz o teste aí: digita “Nordeste” no Google Imagens. Vai aparecer praia, coqueiro, talvez uma cena de seca. É sempre o mesmo olhar apressado de fora, que reduz um território inteiro a um mesmo cenário. Quem fotografa daqui sabe que não é assim. O Nordeste é, antes de tudo, casa.

E é por isso que nesta edição, a gente te convida a enxergar o Nordeste além do cartão-postal. Pelas lentes de fotógrafos e criadores visuais da região que revelam a pluralidade do território. Da cultura popular à gastronomia, do Sertão à cidade, da memória à experimentação com tecnologia. Isso porque a fotografia nunca é só uma imagem.

Ah, e nossa curadoria com conteúdos publicados por iniciativas jornalísticas independentes cada estado do Nordeste tá no nosso site, viu? Corre lá depois dessa leitura.

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O Sertão como casa

Nascida no sertão do Pajeú, em Sítio dos Nunes (PE), e fundadora do Coletivo Acauã, a Géssica Amorim (@gescamorim) fotografa o Sertão a partir da memória e pertencimento. Suas imagens não tratam o interior como um “outro exótico”, mas como lar. Tem uma certa magia nesse caminho: o olhar de Géssica transforma o simples em narrativa. Uma cadeira, por exemplo, pode carregar histórias inteiras.

“Nestas imagens, estão o cotidiano, as pessoas, as luzes, os tons, os cheiros, as lembranças e realidades que me cercam no lugar onde eu nasci e fui criada. A minha fotografia, que também faz parte do meu trabalho jornalístico, acompanhando muito do que eu escrevo, é, também, a minha casa. Sou eu olhando para o que me cerca, tentando alcançar um pedaço da essência desse lugar que varia, flui, se movimenta a todo instante, e faz parte dos meus e de mim”, conta Géssica.

O Sertão, como ela lembra, foi por muito tempo congelado em representações áridas e estigmatizadas. Sua fotografia não nasce para rebater diretamente esses enquadramentos, mas para revelar as nuances que quase sempre passam despercebidas.

“Fotografando, tento me manter lúcida e atenta a isso, pelo menos. As minhas fotografias não são apenas sobre sugerir e sustentar uma outra narrativa, entende? Mas sobre buscar e permitir que o Sertão seja visto em sua totalidade, com tudo o que ele é e representa em todas as suas variações.”

 

No Seridó (RN)

A vida do sertanejo passa pela água, pela terra e pelos costumes. É isso que se revela nas lentes de Osani (@tambureti), fotógrafo de Acari, no Seridó potiguar. Para ele: “Fotografar o lugar onde se vive a partir do olhar de quem o habita desde o nascimento é formular novos imaginários sobre esse espaço, contar suas histórias além do olhar colonial”.

O que move Osani é o desejo de reinventar narrativas sobre o Sertão, romper com estereótipos e deslocar imagens que sempre foram impostas de fora. “Quero um desmantelamento de imaginários sobre a história que foi impregnada nos livros, nos museus, no cinema, nos discursos de quem sempre venceu. Fugir de estereótipos é um caminho árduo quando se trata de algo enraizado na pele, no chão, no ar… mas se torna fácil quando é só chegar no meu bairro e mostrar como vivemos.”

Um dos momentos mais marcantes na trajetória do Osani, e também na vida dos acarienses e potiguares, foi a sangria do Gargalheiras, em abril de 2024.

“Esperei alguns dias para fotografar. No início, só contemplei o momento. Dois dias depois subi a serra mais alta, de frente para a parede da sangria, e de lá fiz os registros. Esperei muitos anos para realizar esse sonho, que resultou em imagens que até hoje me provocam alegria”, completa.

 

Divulgação da riqueza gastronômica popular

Nide Lins (@nidelins) é jornalista e, desde 2012, já colocou nas ruas três edições dos seus guias populares de gastronomia de Alagoas (sim, são muitas delícias). Em cada página, tem um prato acompanhado de foto. E não precisa nem dizer: a gente sempre “come primeiro com os olhos”, né? O curioso é que Nide nem se considera fotógrafa. Diz que só tem “olho bom pra foto”.

“O que me move é simples: registrar, valorizar e dar voz à gastronomia popular de Alagoas, que carrega memória, afeto e identidade. Escolhi retratar a gastronomia popular sem retoques ou visão publicitária, mas do jeito que ela chega à mesa de um bar ou restaurante simples. Só busco o melhor ângulo para que o prato brilhe e, junto com ele, a história e a tradição das pessoas que o preparam”, afirma Nide.

O olhar para as tradições populares

Hugo Muniz (@hugomunizzz) conhece bem as ruas de Olinda e tem um olhar atento para as tradições e sua importância nas comunidades. Sua fotografia começa sempre pelo exercício de olhar o cotidiano e, a partir dele, contar uma história.

Ainda no início da carreira, quando trabalhava como recepcionista em uma barbearia, Hugo se deparou com um grupo de crianças brincando de La Ursa. Registrou a cena e uma das imagens viralizou, virando matéria no Diário de Pernambuco.

“Foi mostrada pra todo estado a beleza da vida das crianças da comunidade Ilha de Santana, em Olinda, sorrindo, brincando, como realmente é. Foi a partir dai que entendi o recado que a vida me deu e sigo até hoje contando as histórias do nosso povo e da nossa cultura”, disse Hugo.

E se engana quem pensa que tradição não atrai mais a juventude. Hugo acompanha de perto o que acontece e garante que outra realidade está em movimento.

Com minha câmera circulo por muitos espaços e vejo outra realidade: crianças aprendendo o Cavalo-Marinho, dançando frevo, enchendo as ruas com mini bonecos gigantes. Quando outras crianças veem essas imagens, também podem se interessar em fazer parte. Até mesmo os pais, ao terem contato com essas fotografias, podem levar seus filhos para conhecer esse universo.

Fotografia e arte generativa

Se fotografia também é memória, o artista visual digital Ronkaly Souza (@ronkalt) encontrou um jeito singular de usar a câmera. Apaixonado por imagens, ele criou o projeto Nova Ribeira, no qual fotografa o centro histórico de Natal (RN) e, a partir dessas imagens, aplica camadas de inteligência artificial para reimaginar prédios abandonados como espaços vivos, cheios de movimento.

A ideia nasceu de uma inquietação que muita gente em Natal compartilha: como um bairro que guarda a origem da capital potiguar pode estar tão esquecido?

“Eu quis despertar nas pessoas um sentimento de indignação e esperança ao mesmo tempo. Acredito que esses sentimentos unidos trazem ação e mudança. Trazer aos olhos o que estava só na imaginação, isto é: aqueles prédios reformados e cheios de vida, mesmo que apenas digitalmente, pôde reacender o debate do porquê ainda estarmos nessa situação”, fala Ronkaly.

Para ele, a tecnologia não é um fim em si mesma. Ela funciona também como uma ferramenta aliada à arte, história e até à mobilização social.

“Dentro desse caldeirão de arte, história e sociedade, as tecnologias podem ser motor de conexão. Fazendo arte com IA, revivendo a história e movimentando a sociedade em prol de um futuro melhor pra todos. O ser humano ama e teme o novo. Os pensamentos velhos vão condenar a novidade, mas os novos vão reconfigurar a arte, usando o novo como mais uma ferramenta.”

 

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