A seca no Brasil é um desafio que vai muito além do sertão 👀

Opa, tudo certinho?

Este mês, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, por meio da Defesa Civil Nacional, publicou portaria reconhecendo situação de emergência em nove cidades afetadas pela falta de chuva. Estão em estiagem Inajá, em Pernambuco, e Pocinhos, Bonito de Santa Fé e Brejo dos Santos, na Paraíba. Já Riachuelo, no Rio Grande do Norte, e Tobias Barreto, em Sergipe, enfrentam seca, que é quando a ausência de chuva se prolonga por mais tempo.

Mas se a gente afasta um pouco o mapa, percebe que esses casos não estão isolados. A atualização mais recente do Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, mostra que, entre agosto e setembro de 2025, cerca de 57% do território brasileiro esteve sob algum grau de seca. Isso equivale a 4,8 milhões de quilômetros quadrados.

Nesse período, o fenômeno se intensificou no Centro-Oeste, no Nordeste e no Sudeste, enquanto Norte e Sul tiveram algum alívio. O Nordeste aparece com o quadro mais severo, com aumento das áreas em seca extrema para 17% da região, o pior cenário desde 2019.

A gente sabe como é fácil cair nos velhos estereótipos quando o assunto é seca no Nordeste. Existe uma construção histórica que trata isso como se fosse uma condição permanente e exclusiva da região. Só que, quando a gente amplia o olhar, entende que o problema é nacional. Ele atinge todo o Brasil, em intensidades diferentes, mas de forma cada vez mais recorrente.

Compreendendo a importância desse tema, para esta edição contamos com um papo com o engenheiro agrônomo, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e especialista em questões de hidrologia do Semiárido, João Suassuna. Ele também mantém um blog com publicações frequentes que vale muito a leitura: www.suassuna.net.br. A conversa ajuda a entender o que está acontecendo, o que mudou nos últimos anos e quais caminhos podem ser pensados.

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Quando alguém ouve a palavra seca e pensa apenas no Nordeste, sertão e naquela imagem antiga de sofrimento, o que está deixando de enxergar sobre o Brasil de hoje?

Está deixando de enxergar que a seca se tornou um fenômeno nacional e cada vez mais complexo. A imagem histórica do sertão nordestino marcou profundamente o imaginário brasileiro, mas ela já não explica sozinha a realidade atual. Nos últimos anos, vimos estiagens severas na Amazônia, com rios atingindo níveis mínimos históricos; crises hídricas no Sudeste que afetaram milhões de pessoas; impactos intensos na agropecuária do Centro-Oeste; e secas prolongadas no Sul. A seca deixou de ser um problema regional e passou a ser um desafio estrutural do país.

A seca não é apenas falta de chuva. Ela envolve gestão da água, planejamento urbano, modelo agrícola, desigualdade social e capacidade de resposta do poder público. Quando a gente limita o problema ao Nordeste, deixa de discutir suas causas e impactos nacionais.

Para quem acompanha dados e mapas, quais são os primeiros sinais de que a seca está se instalando ou se agravando?

Os primeiros sinais aparecem nos indicadores climáticos e hidrológicos. Técnicos observam anomalias de precipitação – quando a chuva fica abaixo da média por semanas ou meses –, redução da umidade do solo, queda nos níveis de rios e reservatórios e aumento das temperaturas médias. Existem também índices específicos, como o Índice Padronizado de Precipitação (SPI), que ajudam a identificar a intensidade e a duração da seca. Mas é importante lembrar que a seca meteorológica (falta de chuva) nem sempre coincide imediatamente com a seca hidrológica (queda de reservatórios) ou agrícola (perda de lavouras). Por isso, o monitoramento precisa ser integrado.

E como comparar Nordeste, Amazônia, Centro-Oeste, Sudeste e Sul sem cair na ideia de que é tudo a mesma coisa?

O primeiro passo é reconhecer que cada região parte de uma realidade climática, econômica e social diferente. No semiárido nordestino, a irregularidade das chuvas é histórica e estrutural. Na Amazônia, a seca impacta fortemente a navegabilidade dos rios e o equilíbrio ecológico. No Centro-Oeste, afeta diretamente a produção agropecuária. No Sudeste, compromete o abastecimento urbano e a geração de energia hidrelétrica. Já no Sul, mesmo estiagens relativamente curtas podem gerar grandes perdas agrícolas. Comparar exige olhar para o clima de base, a infraestrutura hídrica disponível, o grau de dependência econômica da água e a vulnerabilidade social.

Quando o Governo Federal reconhece situação de emergência, o que isso significa na prática?

O reconhecimento federal permite que o município acesse recursos da Defesa Civil Nacional, vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Na prática, o município pode solicitar apoio financeiro para ações emergenciais, acelerar processos administrativos, como contratações em caráter excepcional, e acessar linhas especiais de crédito. As medidas costumam incluir operação carro-pipa, distribuição de cestas básicas, apoio à agricultura familiar, manutenção de sistemas de abastecimento e recuperação de infraestrutura hídrica.

Vale destacar que o reconhecimento é uma resposta emergencial. Ele ajuda a enfrentar o momento crítico, mas não substitui políticas estruturais de adaptação e prevenção.

No semiárido, existe uma experiência acumulada de convivência com a seca, com soluções e organização local para lidar com chuva irregular. O que você acha que mais funciona na vida real hoje, e o que pode inspirar outras regiões do Brasil que estão começando a enfrentar secas mais frequentes?

O que mais funciona é justamente a lógica da convivência, e não do combate à seca. Experiências como cisternas de captação de água da chuva, tecnologias sociais de baixo custo, bancos de sementes adaptadas ao clima local e sistemas agroecológicos resilientes têm mostrado resultados consistentes. Outro ponto fundamental é a organização comunitária. Redes locais fortalecidas conseguem planejar melhor, compartilhar recursos e reduzir vulnerabilidades.

Talvez a maior lição do semiárido para o restante do país seja esta: não se trata de esperar a chuva voltar ao “normal”, mas de planejar a vida considerando que a irregularidade climática faz parte da realidade.

Para fechar, pensando no Brasil como um todo e nas mudanças climáticas, quais seriam prioridades para reduzir o impacto das secas nos próximos anos?

A primeira prioridade é fortalecer o monitoramento e os sistemas de alerta precoce, integrando dados climáticos, hidrológicos e sociais para que decisões sejam tomadas antes do colapso. A segunda é investir em gestão preventiva da água: reduzir perdas nos sistemas urbanos, ampliar o reuso, proteger nascentes e planejar o armazenamento de forma estratégica. A terceira é reforçar a proteção social e a adaptação produtiva, com seguro agrícola acessível, crédito adaptado ao risco climático e políticas permanentes de apoio às populações mais vulneráveis.

Se o Brasil continuar tratando a seca apenas como emergência, vai seguir reagindo às crises. Se encarar o fenômeno como um risco estrutural e permanente, poderá transformar vulnerabilidade em planejamento e resiliência.

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